Então que tenho 34 anos há 7 meses. Ainda estou em uma espécie esquisita de quarentena. Fazendo o que posso com o que tenho. Desesperada em voltar a ser uma andarilha e matar a saudade dos meus lugares favoritos. Às vezes, os dias são extremamente assustadores. Outros são tranquilíssimos ao ponto de eu me perguntar se habito a mesma Terra de todos. Não há um meio-termo, a não ser a mistura desconcertante de dias bons e ruins. E o aprendizado de ter que lidar com eles sem fugir.

Durante esse período, eu tive novas realizações e uma delas envolveu meu nome. Da mesma forma que me passou despercebida a ideia de reivindicar minha idade – isso de um jeito de aderi-la já que nunca me esqueci da minha própria idade –, meu nome nunca foi reivindicado também. Meu nome se propôs a ser na minha vida o que um nome exatamente é: um elemento necessário para que eu fosse identificada na sociedade. Como a idade. O que acarretou um profundo distanciamento.

Talvez, muito desse distanciamento com meu nome tenha a ver com a história por detrás do próprio, Stefanny – e muitos me conhecem pela abreviação Stefs. Minha mãe certa vez me disse que foi em homenagem à Stéphanie de Mônaco do RPM (e que letra de música horrorosa, não é?). Na época, saber disso foi até legal, mas, bom, o inferno vem armado para quem tem nome inspirado em música. Um inferno atemporal já que eu vivi o lance do Crossfox.

Era o início de lidar com esse tipo de coisa na esportiva.

Talvez, muito desse distanciamento com meu nome tenha a ver com eu sempre ter sido uma das últimas da chamada. E ser a última me remete às memórias de quando fui uma das últimas da fila por ser uma das mais altas entre as meninas (aumentando meu desejo de ser pequenina). Eu queria responder logo a chamada e chegar logo na classe. Apressada, como continuo a ser. E sem muita paciência.

Talvez, muito desse distanciamento com meu nome tenha a ver com a raiva que comecei a sentir com a grafia. Dá muito trabalho. Aliás, houve um tempo que fui paciente sobre ter PH ou IE ou acento, mas hoje eu já me apresso e digo: é Stefanny e pode deixar que eu soletro. Mas essa não é a parte que ainda me enerva, pois nada me faz ranger os dentes quando tentam adivinhar onde fica a sílaba tônica quando me chamam. Lembrança também da escola e eu berrava para corrigir a sílaba tônica que é o “té”. E havia uma dose ínfima de grosseria da minha parte.

Minha avó, inclusive, é a única herança familiar que me chama com a entonação errada. Infelizmente, não tem como corrigi-la e eu tenho que fingir costume.

Talvez, muito desse distanciamento com meu nome tenha a ver com o período da faculdade devido à neurose de checar se meu nome estava certo. Já recebi créditos em matéria com meu nome impresso errado e isso para mim desvalidou todo o crédito. Simplesmente porque quem escreveu meu nome nem se preocupou em saber se estava certo – porque se tivesse meu nome apareceria correto. O que se tornou uma espécie de perseguição ao ponto do estresse, pois eu tinha que checar o tempo todo. Como no diploma em que minha ansiedade era pegá-lo e ver meu nome errado.

Eu tenho que reler meu nome várias vezes a fim de ter certeza de que há os dois N e Y no final.

O que denuncia a robótica do: é Stefanny, com S mudo, dois N e Y no final.

O único lugar que deixo passar a questão de grafia é na Starbucks. Há certo tom de desafio para ver quem acerta.

Mas, em dias nada empolgantes, eu apenas uso outro nome. Houve um dia que já fui Georgia.

◆◆◆

Fases e mais fases de um nome que se tornou um elemento de identificação extremamente cansativo. Houve dias que eu desejei ser a Amanda ou a Fernanda, nomes que minha mãe revelou que eu teria até meu pai meter o Stefanny. E, quando penso sobre, imagino o quanto a minha personalidade seria outra sendo Amanda ou Fernanda.

Ao menos, eu seria uma das primeiras da chamada. Não teria que me preocupar com entonação. Nem muito menos em dar de cara com erro na grafia ou ter que soletrar.

Taylor Swift estava errada sobre afirmar em ME! que soletrar é divertido.

◆◆◆

Um dia, minha analista me disse para assumir meu próprio nome. Me bancar! Pareceu fácil, mas eu tive que passar por alguns processos que me fariam compreender as razões de ser tão difícil cravar meu nome nas coisas.

E chegar até este instante.

Eu passei anos da minha vida interagindo sob a ótica de um nickname ou de um apelido. Stefanny me soa muito forte. Sem contar que me lembra de quando era chamada atenção pelos meus pais e professores.

Mesmo com nome de batismo, eu transitei fora de mim, de maneira a participar de diferentes meios sombreada por “outros nomes”. Como aconteceu na época de fanfics, no boom Harry Potter, em que eu trocava de nickname como se trocasse de roupa. Toda semana, ou todo dia, ou todo mês, eu queria ser uma personagem diferente que representasse a saga. Justamente porque “minha personalidade se alterava”. Imaginem se eu pudesse fazer isso na vida real?

Essa foi uma das minhas experiências na blogosfera. Nunca assinando com meu nome verdadeiro e ninguém se importava. Fazia parte da brincadeira. Mas, sempre que o tempo avançava, mais se ampliou a necessidade de ser outra pessoa. Quem sabe a Amanda e a Fernanda, mas como personagens de Harry Potter. Ou em um blog anônimo – que eu nunca tive, a propósito, o que dificulta minha defesa sobre ter gosto em ficar escondida.

Mas demorou anos para eu ser Stefanny Lima ou simplesmente Stefs.

E Stefs surgiu no fim da “carreira” de ficwriter e assim se transferiu para as minhas redes.

Um apelido que funciona – e não preciso soletrar.

◆◆◆

Os ambientes de trabalho, além da minha própria casa, claro, foram os únicos lugares que “assumi meu nome”. Por “assumir meu nome” entenda que foi outra questão de ser chamada pelo meu elemento de identificação, pois nem crédito recebi pelos conteúdos escritos que criei. Ponto esse que me afastou mais do meu nome já que eu tinha que vestir clientes.

Lá estava eu em agências de publicidade até que a tour foi interrompida. Nesse ínterim nasceu o Hey, Random Girl! e, como antigamente, eu tive que botar uma espécie de nickname para “não assumir meu nome”.

Foi algo inconsciente, porque eu jamais pensaria em botar meu nome em um site. O que é normal já que blogs vêm com o rótulo de ter um nome criativo e fácil de lembrar. Só que, em meio a essas minhas reflexões, percebi que isso também foi camuflagem. Em contrapartida, o Hey, Random Girl! me trouxe até o Stefs Lima.

◆◆◆

Stefs Lima. É assim que assino minhas postagens no Hey, Random Girl!. Um lugar que me ajudou a encontrar muito de mim – como chegar ao recente fundamento sobre minha idade. Em outros sites também estive como Stefs Lima. Vejam como é prático! Mas não se enganem. Eu passei os últimos anos sendo mais Random Girl que Stefs Lima.

O que chega a ser engraçado, pois, como eu disse, há textos com meu nome assinado. Stefanny Lima em matérias mais jornalísticas. Stefs Lima em sites de terceiros ou até mesmo em meus próprios projetos. O dilema é que eu nunca reconheci tal nome, do mesmo tanto que nunca reconheci minha idade. Quem recebia os créditos era uma estranha e eu não estava confortável com essa estranha ao ponto de sequer divulgá-la.

E fica mais engraçado porque meu nome já está no mundo de alguma maneira, mas sempre fiquei com a sensação de que nada disso acontecia. De que eu não estava exposta. Pode ser por causa da autoestima e autoconfiança que não tenho. Ou, no mais dramático, não me reconhecer como proprietária de tudo que já criei.

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Claro que meu nome não criou gaps mentais como minha idade. Eu sempre fui Stefanny, sempre serei. Mas eu nunca mais terei 14, 25 ou 33 anos, alguns ponteiros marcados por eventos péssimos na minha vida. Meu nome e minha idade sempre se desencontraram, mas se assemelham em meu próprio distanciamento.

Meu nome reflete no quanto eu me sinto confortável comigo mesma.

Minha idade reflete no quanto eu me sinto mentalmente.

Meu nome reflete uma falta de reconhecimento de mim para mim.

Minha idade reflete o tanto de tempo que eu já transitei nesta vida.

Meu nome reflete o quanto eu abdiquei de mim mesma.

Minha idade reflete o quanto as lacunas da minha mente são enormes.

Somando tudo, eu me declarei uma completa desconhecida de mim mesma.

E declarei que esse jogo tinha que mudar pelo meu próprio bem.

◆◆◆

Eu queria navegar mais nas entranhas deste assunto, mas prefiro compartilhar o instante em que tive a realização sobre desconhecer meu nome. Automaticamente, não me reconhecer. Foi em 2019, quando comecei a testar meu nome, Stefs Lima, para assinar uns textos meus que decidi colocar em outras redes sociais. Eu criara um Instagram teste e comecei assinando com o nome da conta – e claro que não era meu nome. Tampouco metade do meu nome.

Aos poucos, o teste começou a criar raízes e meu estado de choque veio no momento em que escrevi, em uma fonte fina, Stefs Lima. Embaixo de linhas que me pertenciam. Fui pega pelo assombro que calhou de ser tema da análise.

E de todos os conselhos que recebi veio a verdade: eu até que me banco, mas nunca vesti a camisa pra valer!

Automaticamente, eu nunca reivindiquei meu nome.

Eu estou aqui. Circulando como todo mundo. Assinando meu nome. Contando sobre meus números. Mas meus projetos entram na frente e não importa quem os assina. Como na época de fanfics em que todo mundo só queria saber da continuação da história e tudo bem. Não era como se ninguém me conhecesse, pois existia o MSN na época.

Só que, quando dei de cara com meu nome creditando o que eu escrevi, notei o quanto o distanciamento estava condicionado. Foi a primeira vez que me vi como Stefs Lima. A primeira vez que eu coloquei meus próprios créditos, sem errar a grafia.

Foi esquisito, mas emocionante. Ainda mais quando reli dias atrás meu diário de 2019 em que há reclamações sobre eu não conseguir me bancar. Pois bem onde chegamos!

◆◆◆

Eu me acostumei a ser a figura disfarçada. É confortável. Meio Emily Dickinson, autora que me identifico até que demais. Eu digo que sou um boot já que nem perco tempo com selfies. Ou expondo minha vida por aí.

◆◆◆

Neste instante, nome e número se unem e revelam minha passagem por aqui. Nome e número se unem para me dar compreensões de quem fui entre os tempos e de quem posso ser daqui em diante. É minha autovalidação.

A falta de noção sobre meu nome não me impediu de ser alguém. Contudo, eu não tinha consciência de todos esses alguéns que precisei reunir entre as notas de campo. Criando uma colcha de retalhos onde eu sou a personagem que precisa de compreensão. Que vivi, no sentido brincalhão da coisa, 34 regenerações de pura confusão e distanciamento.

Tudo isso me largou com a sensação de ser uma desconhecida. Para eu mesma.

Mas a colcha ganha forma. Amores perdidos foram reencontrados. Desejos também. Além de ideias que poderiam levar meu nome tranquilamente. Ao longo dos últimos meses, eu vi que não era mais tempo de eu, como pessoa, ficar atrás de um elemento de identificação. Eu tinha que abraçá-lo e ser muito mais que esse elemento de identificação.

E tudo isso veio em um rompante. Quase um murmúrio no mês de agosto.

Um murmúrio que resvalou nessa insegurança de aderir meu nome e eu reagi para quebrar o silêncio de meu nome. É raro eu ter instantes de decisão inalterável e este é um exemplo. Eu simplesmente segui a vontade ao mesmo tempo que analisava se era mesmo o que eu queria fazer. Afinal, eu tenho a santa mania de fragmentar minhas ideias e querer que cada uma tenha sua própria casa. Eu, certamente, teria uns 20 Insta.

Algumas coisas na minha vida se apresentam de formas misteriosas e, atualmente, eu não ignoro. Ultimamente, eu pego o que o universo sussurra para ver no que dará. Pode ser que isso tenha iniciado uma história de origem.

Até porque eu notei o quanto o silêncio sobre meu nome me tornou um espectro. Isso só é legal em Doctor Who.

O silêncio me deixou menos consciente de que eu estou aqui e que sou a única que pode me bancar de verdade (e minha analista entrará em choque quando eu disser isso). Como aprendi no início do ano, eu mesma posso me aplaudir (e minha analista me disse isso também).

E este site é um aplauso que me dou a fim de tornar um sou no próprio é.

Parte do texto para pessoas curiosas

Sou geminiana com ascendente em Gêmeos – o que me torna dona e proprietária do signo, pois ele domina grande parte do meu mapa astral. Entusiasta da arte, chorona, humor duvidoso, introvertida (INFJ), uma criança que gosta de tudo ao mesmo tempo e não sabe lidar. Amo tirar fotos de instantes importantes. Amo coisas clássicas. Amo ouvir rádio. Amo músicas tão velhas de uma época que nem nasci. Gosto de falar da vida.

Pareço séria, mas nem sou e isso me bota na saia justa de meio mundo achar que estou puta (e eu não tenho paciência para dizer que não estou, desculpe). Alguns dizem que sou engraçada, mas só ao vivo para confirmar. Amo falar de Astrologia, espiritualidade, magia e afins. Amo café, chocolate, itens que não fazem muito bem para a minha ansiedade. Amo cachorrinhos (tenho duas) e tomar vento na face no fim da tarde.

E andar de carro! E tomar vinho como uma boa Millennial clichê.

E sou swiftie, tá?

Eu poderia continuar, mas é bom deixar o resto nas entrelinhas, né?

E, claro, eu sou Stefs. Prazer!

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Imagem em destaque: Darya Kraplak via Unsplash

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