// Música-tema: Libertar de Sandy & Junior //

Newsletter enviada em: 23.08.2020

Poucas coisas ainda me encantam na internet e uma delas é o elemento newsletter. Sempre quis ter uma, pois sinto o tempo do envio de cartas resgatado. Um tempo nostálgico e que dava para crer que a vida era muitíssimo agitada devido ao investimento na quantidade de páginas. Quantidade essa que registrava meus relatos adolescentes que, na maior parte do tempo, envolviam desilusões amorosas e fofocas.

Não importava se a pessoa destinada a recebê-las morasse ali do outro lado ou no andar de cima do prédio ou se pertencia ao ciclo do colégio. Toda hora era hora de dividir fatos mesmo que repetidos — e logo os bilhetes se transformaram no método instantâneo para a mensagem chegar rapidex. Era empolgante, embora eu não desabafasse muito sobre a intimidade e outras vulnerabilidades. Os diários assumiram essa parte (e ainda com muita dúvida já que havia riscos de alguém passar a mão nos meus segredos e espalhá-los).

Ou nem os diários, pois eu vim de uma geração quase silente sobre questões, digamos, drásticas — e que, automaticamente, exacerbavam um sentimento profundo de vergonha, como o divórcio. De qualquer forma, eu só queria saber de escrever cartas e recebê-las. Ainda mais quando as pessoas moravam longe.

Pode não parecer, mas as cartas eram caprichosas. Afinal, a pessoa que enviava, ainda mais se fosse adolescente, não poupava nas artes. Havia desenhos. Adesivos também — dando utilidade para a cartela dos cadernos que tinha preciosismo (só usarei em casos especiais!!!). As bordas eram pintadas com lápis de cor ou repletas de corações de canetinha. Tudo era pensado, inclusive a alternância da cor da caneta (para frisar elementos importantes) e a escolha das folhas. A genuína expressão do quanto você e a outra pessoa se importavam com uma troca que dependia dos Correios.

Deu para acreditar que esse tipo de comunicação nunca encerraria. Não encerrou, claro, mas não há a mesma empolgação de antigamente. Contudo, o que posso dizer, resumidamente, é que cartas incitavam a ideia de dar um presente em texto. Uma pessoa normalmente se dava de presente em texto. E, pensando aqui, havia um senso de confiança inexplicável nas duas vias. Não havia medo de exposição ou de passar por julgamentos. Meramente porque o desejo unânime era contar uma história e a recíproca vinha da partilha.

Resultando na maior missão das cartas: sentir-se menos só.

O e-mail chegou e minou uma das sensações mais marcantes das cartas: a expectativa do resultado do processo de criação, ou seja, o impacto. Além disso, o pavor da carta se perder no meio do caminho e parar na mão do vizinho. Mais tarde, as redes sociais conquistaram o espaço do e-mail (não todo) e mesclaram tempo com instantaneidade aos processos de comunicação. Adeus aos bilhetes!

Foi um salto temporal que nem me dei conta, pois, de um século a outro, eu já estava imersa nele. Quando comecei a dar por mim, a expectativa se transformou em ansiedade. Partilhar se transformou em conter. O envelope se tornou uma infinita rede (nada confiável). O bilhete agora tem emojis ou se usa áudio.

Não demorou para que cartas se tornassem elementos analógicos já que “não há” mais um motivo para ir aos Correios e esperar uma resposta quando se tem o zap-zap. Teoricamente, o papel também. Tudo bem. Mudanças no tempo, mas ainda prefiro receber cartas e escrever no papel. Caso não seja possível, e-mails — que qualificam as newsletters sobre pessoas como o mais próximo de receber cartas atualmente.

Hoje, gosto de pensar que cartas foram meu primeiro projeto, junto com diários, de escrita. Foi por meio delas que capturei meu interesse de partilha e de conhecer as pessoas profundamente. Sem contar que há algo positivo em extirpar as camadas de silêncio em um pedaço de papel. Eis um passado que se transformou em âncora pessoal, pois eu não parei de escrever. Mesmo que um dia eu tenha declarado hiatus.

Toda essa apresentação é para dizer que deu saudade das cartas. Uma saudade específica que me serviu para botar esta newsletter no mundo (e deixar de ser “menos analógica”). O que muda é o envelope e o tipo de caixa que ela será depositada — a caixa de entrada do seu e-mail. Prometo que as cartas não serão de metro, mas um dia podem ser visto que sou prolixa (e eu fico emocionada no final de ano, então, #vemaí).

A intenção é gerar novos registros em um tempo desorientado e que faz jus ao meme que diz: o silêncio nunca foi ensurdecedor. E, sendo bem honesta, eu nunca temi tanto meu próprio silêncio.

Qualquer coisa, me escreva!

Esse é um conselho da minha analista em todo final de sessão. Claro que tal momento não surgiu do nada, pois eu contei a ela sobre eu gostar de escrever. Desde então, isso se tornou a conclusão dos nossos papos a fim de me inspirar a não ficar em silêncio — e a pedir ajuda fora do tempo das sessões.

Um dos primeiros antivenenos da minha vida já que escrever me coloca de volta à superfície para saber o quanto o tempo mudou. O quanto eu mudei. O quanto de mais inocência se foi entre tornados virulentos. O quanto ainda posso reviver. Detalhes que não são o foco desta newsletter, pois eu tenho meu diário pra isso.

Cartas têm seu talento de mostrar que não se está só. Inclusive, você se lembra de que existe – especialmente de que ainda vive. E estende a comunicação. Seja com pulso firme ou não, a escrita ajuda a eliminar alguns venenos do nosso bonito sistema para assim exalarmos de novo.

Com sorte, notas de campo fresquinhas nascerão para guardar e eternizar.

Para reler e reaprender como se (re)viver.

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Imagem em destaque: Debby Hudson via Unsplash

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