Anteriormente, Stefs escreveu um texto sobre a devolução da carteirinha de escritora. Um relato de altos e baixos sobre continuar no clube de escritoras e, no fim, ela decidiu permanecer.

E ainda permanece como vocês poderão conferir no reboot do diário de escrita!

Cara escritora-chefe,

Foi em julho que eu desisti de abandonar minha carteirinha de escritora. Lembro-me como se fosse ontem, pois eu me sentia sufocada por várias perturbações sobre esse assunto. Uma delas foi a ansiedade de escrita (writing anxiety), que acredito que melhorou depois que passei os últimos meses escrevendo sem espiar pelo ombro. E também caí em um redemoinho de realizações, como diminuir a importância da escrita a fim de voltar a me divertir com o processo. Tanta coisa aconteceu na minha vida ao longo deste ano e, quando dei por mim, várias nóias não me pertenciam mais.

Desde então, o clube de escritoras nunca foi tão interessante e, literalmente, a experiência tem sido mais divertida. Os últimos três meses reforçaram essa sensação, além de me ajudarem a recobrar a confiança no processo que rebateu na minha autoconfiança. Não que eu me sinta superconfiante neste prezado momento, mas estou mais confortável e segura. Entendi, de uma vez por todas, que certas coisas na vida só fazendo pra sacar o que há de bom.

Pensar em só botar meus mundos pra fora tem sido o suficiente. Especialmente quando resolvi um dos meus maiores dilemas: encontrar a dita voz narrativa. Claro que enfrentei dias ruins, o período de março a julho, que a Deusa o tenha, foi infernal. Mas eu retornei graças ao desentupidor de um Dalek (referências de Doctor Who).

Traduzindo melhor, uma força sabe-se lá de onde me tomou e eu comecei a declarar a famosa palavra com F. Voltei à tona já acomodada na cadeira para destrinchar meus projetos interrompidos pelo período infernal mencionado acima. Fui comandada pela exaustão que não pedia descanso, mas ação. Pode ter sido o famoso piloto automático, mas, uma vez nesse redemoinho, eu não penso muito. E me estresso mais. Elementos que desautorizam esse comportamento, embora faça sentido. Porém, eu não fiquei sentada elaborando sobre. Eu agi para elaborar sobre.

A real é que eu segui o fluxo pela necessidade de movimento. Não me estressei. Não assumi o controle. Apenas fui conforme os comandos do universo. Seguindo e fazendo enquanto eu tentava me livrar do silêncio sequestrador.

O sequestro realizado pelo silêncio foi tão fácil que só notei quando me libertei. Eu estava inflada como um balão, desesperada para me jogar em algum canto e falar. Bom, como eu estava inábil a falar, o que me restou foi assumir o piano da escrita – mais conhecido como teclado – e ver o que sairia disso. Bom, nasceu uma newsletter.

Com o nome mais óbvio do planeta!

Isso aconteceu em agosto e agosto terá uma lembrança especial para mim. Foi o mês que minha mente começou a sair de uma entorpecência que eu não preciso contar o motivo. Reagir foi o que mais almejei, mas sequer tive ideia de onde e como. Acabei retornando aos lugares cativos que pacientemente me aguardavam. Não para recuperar o tempo perdido (porque isso já estava incluso no pacote sem eu precisar elaborar a respeito), mas para me colocar de novo na vida. Digamos que eu dormi nesse mencionado período e agosto funcionou como despertador.

Eu não tinha ideia de como (re)agiria já que, mesmo estando no clube de escritoras, não fui poupada de uma espécie de caos que renderia uma história de terror. Talvez, no fim, outro eu-lírico se manifestou e começou a bater palma. A me empurrar. E eu fui sem pestanejar. Sem questionar. Da newsletter, eu me vi montando este cantinho de escrita.

Parece pouca coisa, mas foi muita coisa. Até porque sou famosa por ter projetos demais. Não necessariamente significa que eles circulam. Lembra do caderninho de ideias? Uma hora cada ideia terá espaço e fará sentido. Como a newsletter que girou na minha vida desde 2018 e achou 2020 o tempo adequado para nascer.

◆◆◆

Agosto foi o mês que coloquei os meus principais projetos, que se interromperam nos últimos oito meses, no papel para eu revisá-los. Para meu próprio espanto, tudo estava pronto. O que eu precisava era de uma nova reorganizada já que determinados eventos têm o poder de te mudar profundamente. E eu já sentia essas mudanças profundas desde o ano passado, mas 2020 veio para garantir que eu, como mulher e escritora, já não era mais a mesma.

Esse crédito eu dou para dois anos e meio de análise psicológica, hein?

Quando o modo como você se vê se altera, o mesmo para o que você sente e como vê a vida, os projetos perdem o tom. O compasso antigo deixa de funcionar. Todo meu processo de escrita, desde agosto, foi focado na minha redescoberta. Nada programado. Algumas coisas na minha vida simplesmente acontecem e eu preciso me entregar.

A newsletter foi meu primeiro trabalho de foco e, como sempre, o que me faltava era um nome. Dentre todos os talentos que eu poderia ter desenvolvido no clube de escritoras, gerar títulos e batizados não me pertence. Por isso que, se eu tiver filhos, certamente nenhum deles terá nome – e se tiverem vai ser de personagens, acompanhem!

Mas daí acabou sendo Contra as Feras, em homenagem a um projeto que também foi um site – uso o túmulo neste presente momento e coloquei meu nome em cima. Mostrando-me que, às vezes, o que é óbvio também pode funcionar perfeitamente. Até isso acontecer, as ideias me pentelham e não vão pra vida sem um título.

Contra as Feras se tornou tema das cartinhas que encaminho de 15 e 15 dias (já que a newsletter também tem meu nome e “Contras as Feras” se sai como ponto de partida para escrever os textos). Uma vitória em 2020, pois sempre quis ter uma newsletter e ainda me parece surreal. Mas eu aprendi algo importante: eu preciso tomar ação para conter minhas ansiedades. Não que seja uma surpresa, mas eu ainda passo muito tempo na minha cabeça. Fritando, cozinhando, agonizando como tem que ser, como foi, como possivelmente é. Sendo que basta sentar e fazer. É aí que aparecerá a forma e é muito provável que eu goste dessa forma (tem sido assim desde então).

Durante a composição da newsletter, meu outro site, o Hey, Random Girl!, precisou de mudanças nas categorias. Algo que também pertenceu a minha zona de fritar, cozinhar e angustiar. Desde 2018 que eu vejo que nada lá funciona como antes e eu tentei empurrar esse antes pelos anos conseguintes. Mas, uma vez que se assume seu nome, você assume idade, signo, preferências, o eu em sua completude (ou quase pois nem tudo é perfeito). Então que comecei com esse negócio de público-alvo, nicho e etc., coisas que eu não me abatia.

Assim, eu dou graças a Deusa que esse projeto cresceu de forma orgânica. Bastou-me crer e pronto. Mínimos esforços do bem. Basicamente o famoso o que tiver que ser será.

Passei uns dias de agosto presa nesse projeto porque eu necessitava colocar esse “novo eu” dentro dele. Foi difícil, mas ainda bem que eu sei sobre o que ainda gosto e quem são minhas novas admirações. Soma que me inspirou na alteração das categorias depois de 84 anos e consegui justamente depois de completar 34 anos. Não penso e não falo como antes. O que refletiu automaticamente na minha escrita, pois, nesse ínterim de tempo, eu também saquei que escrever Young Adult não é minha prioridade. Eu tenho tantas histórias familiares dentro da minha gaveta, sabe?…

E aí eu consegui. Mudei as categorias com sangue nos olhos. Enviei a newsletter.

No meio desse caos de reorganização que me surgiu a ideia de sair das sombras definitivamente por meio de um site com meu nome. Foi natural também. Tão natural que nem consultei a conta bancária para fechar layout e comprar o domínio (depois eu chorei com as dívidas, mas vamos fingir). Fui pega por uma ideia assobiante e cá estamos neste projeto que só foi possível de nascer quando roubei a parte de escrita do Hey, Random Girl! para inserir aqui.

Com a reforma das categorias, a escrita saiu de cena. Pensei em deixar de lado já que eu estava escrevendo por bel-prazer, mas a ideia de ter um site com meu nome realmente me animou e eu mandei bala.

Cá estamos!

Resultando em um mês de agosto cheio das ideias mirabolantes que me fizeram bem.

◆◆◆

Eu sou aquela que defenderá pelo fim da vida que a escrita tem seu caráter terapêutico e meus belos sinto muito para quem não pensa assim. Os meses conseguintes foram de muita escrita e muita elaboração mental e emocional. Minha analista ficaria realmente orgulhosa. Ainda mais porque é dela o famoso qualquer coisa, me escreva.

Até ela sabe que escrever ajuda, então, quem sou eu para negar algo que me é intrínseco?

A newsletter me ajudou a entender o que acontecia dentro de mim. Salvou-me do sequestro do silêncio. Foi quase como desbloquear um chacra. Ganhei realizações das quais ainda não tinha sobre minha escrita e isso fortaleceu, finalmente, o que hoje posso chamar de voz narrativa. O ano todinho eu fiquei nessa de qual é minha voz? Será que posso escrever sem diálogo? Daí eu me lembro que foi um monte de homem hétero cis que criou a estrutura narrativa e eu resolvi abraçar meu lado modernista (leia-se: geminiana que não curte certas convenções).

2020, galera, por quais motivo eu vou me amarrar desse jeito? Passei tempo demais mergulhada em manuais, também escritos pelos mesmos homens, quando a coisa toda acontece na prática. Quando mulheres possuem focos diferentes. Uma voz diferente. Uma visão de mundo diferente. Mais uma limitação rompida!

◆◆◆

Prática eu tive de sobra desde que mantive minha carteirinha de escritora. Com a pandemia e a dinâmica do grupo, meus horários se tornaram outros. Os finais de semana agora são realmente sagrados para a escrita, pois assim eu dou conta dos outros projetos. A Alice passa bem, embora tenha entrado no ciclo de reorganização de enredo.

Depois de ter choramingado sobre sair do clube de escritoras, eu sei que retorno mais firme. Eu gosto mais do que escrevo hoje em comparação a anos atrás e deve ser porque agora sei com afinco o que quero comunicar. Pode ser que daqui uns anos esse saber o que comunicar se altere e acredito que é normal. Evoluímos e o texto evolui junto. O tom da voz também e os tipos de personagens que deixarão de ser fantasmas da mente.

Penso que agora eu sei como quero participar do clube de escritoras. Até porque eu já estou nesse clube a tanto tempo e demorou o mesmo tempo para eu me dar crédito – e o crédito sou eu que tenho que me dar, né?

Daí você pode me chamar de doida, pois todo mundo quer uma gota do aplauso. Mas os últimos meses infernais que eu tive me ensinaram que eu preciso me aplaudir primeiro, pois os outros aplausos serão mera consequência. Ainda mais se for dentro do que eu espero, em uma sala íntima, com poucas pessoas e o mínimo de ruído possível.

A faceta da introvertida que mandaria seu holograma receber um Emmy.

Eu voltei com mais consciência de onde quero ficar. Não tenho planos, pois planos me emperram e me dão aquele senso de controle que eu não preciso (e nem quero mais). E, bom, é fins de 2020. Quero curtir esse ciclo final em sua fluidez. Muita coisa mudou dentro de mim. Há angústias novas que não foram trabalhadas e uma curiosidade renovada. Eu nunca me importei de começar de novo e vejo que, realmente, eu posso tatuar Fearless em meu corpo.

De algum modo esquisito, eu sou destemida. Mesmo que do meu jeito torto, desorganizado e procrastinador.

E eu realmente segui o seu conselho sobre fazer o que faz sentido pra mim. Bom, eu sou meio demorada em pegar conselhos e aplicá-los de verdade, pois eu gosto mais de sofrer – e sei que você acabou de me xingar mentalmente, pois quem gosta de sofrer? Eu precisava pontuar isso em nome do contexto, porque eu não gosto de sofrer. E parei de falar esse tipo de coisa, pois o que se diz, se atrai. Sigo normal curtinho a tristeza, porque tristeza pra mim é um negócio que me move, seja pra cima ou pra baixo, e tudo bem. Aceitei e escrevo sobre.

Desde que você me disse sobre interromper perturbações, eu percebi como as perturbações agem dentro de mim e como posso resolvê-las. Não é um processo rápido como eu gostaria, mas eu estou aprendendo. Uma hora chego lá.

Neste instante, eu só quero saber onde estou na vida. De maneira geral. Cansei de pensar no futuro, pois o futuro sempre me foi nocivo. Sempre me deixou mais perto do limbo que de alguma luz. Então, eu aprendi a escolher o presente. E, no presente momento, continuarei com o mantra que surgiu em agosto: fazer com o que tenho e como posso. Não tenho muitos lugares para ir. Como se eu pudesse ir para algum canto com a pandemia, né?

◆◆◆

Se há algo mais que eu posso dizer antes de encerrar este adorável reboot é que eu chutei o balde. Do meu jeitinho slow motion. Pode não parecer, pois ainda fico no meu gabinete, ignorando o mundo externo. Entretanto, sigo o conselho que recebi dias antes de outro período de desistência. Depois de tudo, exigir não é um motto e eu desaprendi a exigir demais. Desaprendi sobre controle também. Enfim. Eu desaprendi muita coisa nesses meses.

Desaprender nem é a palavra correta, mas meu sistema deu pane e desconfigurou nos últimos meses (finalmente eu consigo mencionar a Pitty e eu nem deveria estar “radiante” com isso, SOS!). Um grande crime arrancou uma massa do meu cérebro que, além de me deixar inflada de raiva, me apresentou um tipo de depois que não orna com o passado. Nem com meu “hábito” de tentar manter o antes quando o antes deixou de me pertencer. Bem antes do caos que todo mundo ainda vive por causa de um cretino desgoverno.

O que orna agora é fazer. Respeitando o timing das coisas. Me respeitando. Dando voz aos ecos dos fantasmas ao meu redor de maneira a expurgá-los, pois assim eu diminuo as minhas angústias, meus medos e assim por diante.

Escrever diminui minhas perturbações mesmo que não todas. Demorou, mas, a cada dia que passa, eu enxergo isso. Foi aí que eu voltei a me apaixonar pelo processo, pois, de novo, é uma questão de fazer. E, fazendo, eu melhoro. Eu descubro como é minha voz e meu estilo de escrita. Nada disso está nos manuais, mas na vida em si.

Dentro de si. E acredito que eu retornei para esse cerne. Só assim para eu continuar escrevendo.

Como disse a conselheira do clube de escritoras, sempre questione o para que?

Por enquanto, esse para que é isso aqui: para mim e por mim.

É isso que tem me importado no final das contas ou eu não estaria aqui. Ainda escrevendo.

Leia também:

Devolução da carteirinha de escritora

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Imagem em destaque: screencap da série Dickinson.

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