// Álbum recomendado: A Pill for Loneliness do City and Colour //

Newsletter enviada em: 22.09.2020

Dia desses, eu acordei sentindo que algo de grandioso me faltava. Tomei uns minutos para saber o que acontecia e notei que essa ausência não estava relativamente dentro de mim. Mas também não se associava a uma pessoa ou a um objeto. A ausência não tinha forma, mas queria ter. E eu supus ser sobre a ausência de um grande evento que me dissesse que tudo está bem. Que tudo está sob controle. Que uma hora as coisas melhorarão. Que meu barco ainda em reconstrução não se partirá de novo. Que o caminho é certo.

Um grande evento que tornaria, possivelmente, o dia daquele despertar diferente. De um jeito que mudaria positivamente o rumo das coisas. Que impactaria os dias conseguintes de um jeito que diminuísse meus receios de até mesmo espiar por cima do ombro.

Geralmente, eu consigo acertar logo de cara como me sinto em reflexo do peso das minhas emoções. Não dessa vez e a comichão sobre a ausência de um grande evento cresceu. Perseguiu-me pelo tempo de um dia e de outros dias, como este em que envio esta cartinha.

Mas, retomando o ponto de partida desta conversa, essa ausência de um grande evento me acompanhou em meio às demandas do período e começou a criar ervas daninhas em meu cérebro. Eu fiquei mal-humorada. A falta de respostas…

… Ela tem seu jeito de me deixar pau da vida!

◆◆◆

Continuei com as demandas e, entre as pausas, me vi questionando essa ausência de um grande evento. Não houve respostas prontas, então, o que me restou foi a adivinhação. Poderia ser sobre um acontecimento em si. Poderia ser sobre o iogurte branco que, subitamente, fiquei com vontade de saborear com sucrilhos. Poderia ser sobre uma (re)afirmação. Poderia ser sobre escapar por meio do primeiro ônibus e nunca mais voltar. Nenhuma revelação, pois, até onde sei, eu não estava à espera de um grande evento.

Qualquer evento costuma sincronizar com determinada ação e eu não tenho tomado grandes ações. Conforme o ano chega ao fim, eu só quero fechar a lojinha. Já deu! Meu cérebro só quer saber da maratona de filmes natalinos, pois é o famoso “a energia que me resta”.

O que posso dizer é que essa ausência de um grande evento me deixou confusa visto que sua orientação foi assertiva. Tinha pulso. Porém, nada de clareza. Houve um momento em que decidi resumi-la ao vazio, pois, talvez, essa ausência de um grande evento seria sobre a saudade da típica rotina – saber para onde ir, o que farei, que horas voltarei, o que comerei, e assim por diante. O que me colocou de vez entre os atritos da pandemia visto que “estava de fora” desde o início de agosto. Bom, me pareceu cabível, pois eu até que gostava dessa ordem. Havia movimento interno e externo. Dava senso de foco e de meta.

Mas, no fundo, eu sabia que não gostava dessa ordem. Essa ordem me deixava sufocada. Logo, tese descartada, menos a parte do sufoco. Eu ainda me sinto deveras sufocada.

Daí, eu supus que essa ausência de um grande evento poderia ser porque nada acontece. Não é à toa que há dias que dá vontade de tacar o famigerado foda-se e quebrar a quarentena de meses. Como diz o meme da Nazaré: eu preciso bater perna. Principalmente porque é batendo perna que tiro as nuvens da minha mente.

Mas é preciso sair de máscara e eu desisto. Eu já estou com ranço da máscara e você?

E eu juro que não sou boomer!

Foi questão de tempo me ver injuriada. Nada acontece do lado de dentro. Tampouco do lado de fora, embora haja esse fingimento de que tudo está normal. O tempo se move. O tempo não espera. Ele se manifesta em um dia, faz e desfaz. Seu único pacto atual é engrandecer a verdade de que a paisagem é maior que o existir humano, pois muito do existir humano hoje se resume ao peitoril da janela.

◆◆◆

Eu decidi resumir a ausência de um grande evento como um fantasma.

Faz sentido até o momento, a propósito, pois, desde o dia desses, a sensação é fantasmagórica.

(…)

O que me restou no dia em que despertei com essa súbita ausência de um grande evento foi rebobinar para enquadrar a origem. Notei que esse fantasma sobre a ausência de um grande evento me acompanhava antes de sentir tal inquietude dentro de mim — e efetivamente tocá-la para fazer sentido da minha realidade. Em uma ínfima obsessão: checar meu e-mail como se eu esperasse o cheque da Mega-Sena.

Bom, eu não checo meu e-mail com frequência e piorou na pandemia. Não é à toa que ele já passou das mil mensagens congestionadas (desde março). Incitando a vontade de criar outro, pois descongestioná-lo requer a atenção que eu também não tenho mais.

Mas o assunto não é sobre isso, perdão o devaneio.

Bom, eu não checo meu e-mail com frequência, mas percebi que procurava ensandecidamente por esse grande evento dentro dele. Bom, não estava. Nem nas promoções da Amazon, nas newsletters de escritores que eu gosto, nos boletins sobre as últimas presepadas do presidente. Cheguei a averiguar até o spam, outro ponto que sequer lembro de que existe. Nada acontecia lá também.

Uma ação repetitiva.

E todas as vezes nenhum evento.

Os e-mails só estavam ali para garantir que o tempo ainda geria a vida como manda o manual da existência.

◆◆◆

Talvez, você se pergunte sobre o gatilho desse fantasma sem forma, mas que aponta para a ausência de um grande evento. É inexplicável. Como tudo ultimamente ao meu redor. Como eu disse, não ando agindo muito. Todos os dias eu tento chegar o mais próximo possível de ser uma pupila de Lao Tsé (ser como o oceano e ver no que dá). Não tem como adivinhar o inexplicável. Não há uma forma para compreendê-lo.

O inexplicável é uma palavra que já diz tudo.

Durante esse dia, eu continuei pensando e concluí que esse grande evento tem nuances positivas. Não farejo tragédia. Longe de mim depois dos últimos meses. A perspectiva é de terra firme. Nada de dinheiro, embora não negue que todo dia eu espere ser descoberta pela família Lima como uma prima perdida. Nada de envolver uma pessoa ou um objeto, pois eu estaria contente se vivesse uma típica cena de Supernatural em que Sam e Dean Winchester ganham algo e os balões caem ao redor deles.

Concluí também que a ausência de um grande evento pode ser a espera de uma resposta para mínimas ações já que não posso me dar ao luxo de ficar 100% parada, como o oceano, ou em cima da montanha observando a fúria da natureza. Não mentirei pra você: eu tenho feito o mínimo do mínimo.

De qualquer maneira, o fantasma que rege a ausência sobre um grande evento gera mal-estar justamente por não ter clareza. O invisível nunca assegurou minhas emoções ansiosas e eu percorro para assentá-las. Talvez, eu ainda seja a pessoa com grande necessidade de saber com o que lido. Talvez, eu realmente ame a rotina com todos os detalhes na ponta da caneta. Mas, mesmo com tudo na ponta da caneta, eu nunca soube com o que lido. Não é um quadro diferente como gosto de imaginar. É mais do mesmo.

O que sei é que esse fantasma flerta com o grande evento que fica maior conforme o ano se aproxima do fim. De um jeito que, talvez, eu possa finalmente enxergá-lo.

◆◆◆

Chegada a noite, entre um pensamento e outro, cogitei pedir um sinal do universo. Apesar de coisas acontecerem do lado de fora, como se estivéssemos em um mundo “normal”, há algo acontecendo dentro e que se move e quer regurgitar. Talvez, seja esse o grande evento que continuo sem saber o que é, como é e quando vem. Não há uma agenda dessa vez. Nem uma reunião que poderia ser resolvida por e-mail.

Cogitei em questionar o universo e pedir um sinal, mas me lembrei de que o universo não tem me faltado com sinais. Isso se os leio corretamente e espero que sim, pois o benefício de agir como o oceano é que você observa mais e a intuição consegue trabalhar com folga. Então, refutei o pedido. De alguma forma, eu senti que, se pedisse, eu interromperia alguma coisa. Como eu sempre interrompo ao não lidar com o fluxo.

Ao não acreditar minimamente na vida.

Então, conjecturas me restaram e se alongaram nesse mencionado dia. Talvez, esse grande evento ausente dependa de mim, não sei. Talvez, esse grande evento seja sobre gritar, mas eu sou patética gritando. Talvez… Não sei, você tem alguma ideia?

◆◆◆

Eu poderia desdobrar mais sobre essa ausência de um grande evento, mas eu não tenho mais pique para elaborar argumentos cabulosos. Estou cansada. Tão cansada que relaxante muscular me derruba como se fosse uma espécie de sonífero. Mas, talvez, eu esteja sendo testada em meio ao fluxo visto que minha urgência ainda é por eventos responsivos, os de ação e reação imediatos. E sinto que as respostas podem estar além da janela. É minha teima. Surreal diante de um mundo ao seu alcance e não alcançável.

Enfim. Acho que, naquele dia que despertei, observando os riscos de luz contra a parede perto da cama de minha irmã, observando a ausência dela devido a mais um dia de trabalho, havia o sinal de que ainda tenho que esperar. Ser paciente. Eu decidi pelo fluxo assim que me vi de volta ao mesmo mundo que você provavelmente habita. Logicamente que tal escolha testa minha urgência por eventos responsivos, os de ação e de reação imediatos. O que sei é que estou aqui, observando e aguardando a boa nova grandiosa.

O tempo é a única coisa concreta que existe e, talvez, eu precise ficar ao lado dele. E confiar sendo que anda difícil confiar até mesmo na minha sombra.

Mas, se há algo tangível nesta história, é a espera e a paciência. Duas palavras que, atualmente, são o que me resta. Como estar na Caixa Econômica Federal, consciente de que não há nada a se fazer a não ser justamente isso: esperar. E ter paciência já que uma hora minha senha chegará e o mal-estar se aplacará (vamos fingir que tudo praticamente dá certo com esse banco, ok?). Nada de bufos sobre o óbvio.

Algo grandioso ainda me falta, eu sei, mas, enquanto isso, vivo no tempo de um dia.

Em meio ao fantasma que nada diz, apenas pulsa um grande evento que ainda segue ausente.

◆◆◆

A consciência sobre a ausência de um grande evento tomou o tempo de um dia e outros tempos de um dia. Começou silenciosa e cresceu e me fez/faz questionar o que mais devo esperar enquanto o mundo não se realinha. Enquanto o mundo não volta a ser alcançável e tangível. Eu poderia me convencer de que não há nada mais a esperar, mas, ultimamente, eu estou esperando tudo. Principalmente coisas boas e é essa a parte mais concreta. Eu sei que posso provocar muito dessas coisas boas, mas ainda aguardo esse grande evento. Um além de mim. Que se manifesta e recompõe — por dentro.

É o que me resta de fé.

E é meio estranho ainda ter fé.

◆◆◆

Imagem em destaque: drmakete lab via Pexels
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