// Playlist recomendada: direto da cadeira do dentista (anteriormente “old but gold”) //

Newsletter enviada em: 07.10.2020

Já é outubro e eu não sei exatamente o que pensar. Não sei o que mudou, o quanto mudou e se ainda haverá tempo para mudar algo mais. Ainda me sinto perdida nesta realidade difusa que aparenta estar mais sossegada, mas, a menor aproximação, ainda se vê caos.

Assim como muitos, continuo nos mesmos cantos da casa e querendo urgentemente sair dela. O que me surpreende, pois acreditei que lidaria como mestre diante da ideia de não sair. Sou introvertida acima de tudo. Porém, viver em uma casa sempre cheia, lidando com caos que não é meu na maior parte do tempo, me desmontou pelo simples fato de que não posso me afugentar na casa e ter meus momentos sozinha.

Um tipo de recarregamento de bateria que foi suspenso e eu tive que me desdobrar para me acolher de outras formas. Ainda sigo nessa jornada, especialmente para me sentir segura. Foi quando me deparei com a nostalgia.

Não a nostalgia enlatada e capitalista de Hollywood, mas a que envolve uma saudade genuína e que inspira ir atrás da versão original de um filme que marcou profunda e intimamente. Ou tirar a poeira de um disquinho a muito esquecido e que te deixava com cara de tonta. Ou fazer algo que era incrível anos atrás, como dançar sozinha no meio do quarto.

Essa é a nostalgia que se transforma em espaço seguro. Aquela que traz efeitos positivos, principalmente na saúde mental, por ser a nostalgia tranquilizadora, que te envolve e te segura pelo tempo que for preciso.

Pra mim tem sido praticamente o tempo todo desde que a nostalgia me pegou. Ainda mais quando a nostalgia que estalou em mim, como o canto da sereia, foi a relacionada com música.

Vamos retornar ao início da quarentena (isso se você ficou no isolamento). Fins de março e o pico de maio. Nesse ínterim de tempo, se despertou um tipo de nostalgia que fez meio mundo tirar poeira de Crepúsculo. Sentir-se novamente com 15 anos e ouvir My Chemical Romance. Exemplos que eu não posso descrever a emoção por todos, pois tal nostalgia se manifesta de várias maneiras. Mas, pelas respostas de alguns tuítes, a experiência gerou certo conforto. E diversão, pois se revisitou uma versão (ou várias) das antigas.

O que sei é que há um denominador comum: um estado de completa pureza. Justamente porque essas memórias antigas resgatam uma antiga pessoa sem tantos julgamentos — e que passou pela autocrítica da pessoa atual. Inclusive, resgatam objetos e conteúdos que foram espaços seguros de transição — como a fralda de pano que um bebê se nega a dormir sem ou a chupeta propriamente dita.

É a nostalgia febril que vem simplesmente do nada, mas pede para que você permaneça um pouco com ela. Navegando. Com sorte, haverá uma sensação reconfortante. Daquele jeito que o coração infla de saudade e não de um agridoce aumentado. Daquele jeito que você suspira e fala ai Gabi… enquanto funga.

Claro que essa nostalgia não impede que as emoções do passado sofram seu próprio reboot. Como já te contei, nem sempre as mesmas memórias mantêm os tons rosados.

Mas, hoje, eu só quero navegar em nostalgia boa. Cheia de tons rosados.

Nunca vi a ação da nostalgia como aconteceu no início da quarentena e acredito que tenha visto pouco. Porém, o suficiente para enxergar uma febre intensa que me pegou com delay. Quando dei por mim, eu limpava minha caixa de CDs e prometi comprar um aparelho de som — especialmente para escutar o rádio.

Não sou formada em psicologia, mas posso acreditar que a catapulta foi a necessidade de escapismo e o mero ato de tentar escapar não é escolhido aleatoriamente. Muita gente escolheu bolos, por exemplo. Um ato de contenção e de articulação emocional em um período que ninguém sabia como seria chegar em outubro e ainda não ter certeza sobre o que mudou, o quanto mudou e se ainda haverá tempo para mudar algo mais. Mas, de alguma forma, estamos aqui e muitos desses elementos nostálgicos, ou descobertas (como fazer bolos), contribuíram para a transição. A nostalgia (e bolos) é o antídoto deste tempo.

Um antídoto que viveu em mim com certa negatividade por anos. Eu cresci ouvindo que “quem vive de passado é museu”. Por essas e outras que a ideia de nostalgia e passado colidindo o tempo todo, gerando desconfortos sobre retornar, mesmo que o retorno tenha seus tons rosados, fugiu do meu alcance. Sem contar que nem os tons rosados escapam de desconfortos, pois acabam por reter aquela impressão de tempos bons que não retornam. E daí se fica triste. Dificultando um pouco mais a necessidade de olhar o passado e conversar com ele. Uma conversa que pode ajudar a libertar o calcanhar mais pesado.

Pouco quis saber, pois sempre escutei também o “deixe o passado para trás”.

Daí notei anos depois que eu passei a ser perseguida pelo passado, pois não conversei com ele. Inclusive, vi o quanto eu me tirei do direito de me sentir nostálgica. Graças ao “quem vive de passado é museu”, eu me agarrei ao pressuposto de que nostalgia é algo negativo. Relembrar é para os fracos! E o significado da palavra em si não ajuda muito, pois tem suas nuances negativas que se relacionam à melancolia ou ao estado de tristeza sem motivo. Que tipo de experiência custosa emocionalmente, não?

Não é à toa que eu tirava sarro da minha tia berrando alguma música de Zezé Di Camargo & Luciano devido à lembrança de algum boy dela. Eu não queria ser “essa pessoa que fica com saudade do passado”. Eu hein!

Ou, como diz as minhas tias, “dos tempos de Barbacena” — sei lá o que seria Barbacena. Parecia vergonhoso sentir falta de entretempos. Sentir falta de alguém. Soa como se você fosse infeliz ou dependente.

Quando é só saudade de algo bom e que faz chorar sem motivo algum. Chorar sorrindo.

E eu me vi nesse instante de chorar sorrindo. Foi bonito e estranho. E isso fez bater o desespero.

Ainda mais quando me dei conta de que tudo que amei, do mesmo jeito que um bebê ama sua fralda de pano, me ajudou a transitar. Foram mãos invisíveis que me ajudaram a ficar de pé.

Eu sempre vivi em ambientes nostálgicos. Automaticamente, ao redor de pessoas adultas que sempre sentiam falta de algo do passado. Ressignificando uma leitura, não vejo aspectos negativos nessas situações que vivenciei quando criança. Parecia a saudade que faz chorar sorrindo. Pinturas bonitas e estranhas.

Outros desesperos.

A nostalgia sempre esteve ao meu redor. Seja na forma do que não vivi. Seja no que vivi. Dias que um dia eu amei. Outros dias que eu espero amar quando acontecerem. Eu tinha me esquecido de muitos dias bons vividos — já que sou craque em sentir nostalgia sobre o que não vivi. Justamente porque o que se aderiu em mim é que nostalgia é sobre amargurar o passado. Pode ser, mas não dentro do meu ser. Não mais.

O passado existe para ser tratado.

E a nostalgia pode ser lida como um dos faróis nessa transição.

Muito do que foi resgatado durante a quarentena me fez bem. Justamente porque a nostalgia a que me refiro não é sobre reciclagem do que já existiu, mas reviver o que se viveu o mais originalmente possível. É um antídoto incrível por envolver ativamente o eu. Por envolver tons rosados. Rendendo paradoxos, pois você pode sentir a pulsação de energias positivas e negativas. E você pode ficar igual à Pepita: toda arrepiada! Ou como algum personagem que chora deslizando pelo box. E tá tudo bem!

Pensando pelo lado positivo, essa nostalgia envolve reconexão. Quem sabe, com partes perdidas do eu, consumidas por essa grande máquina capitalista. Quando éramos mais novos, não tínhamos tanta crítica e autocrítica. Apenas navegávamos. Pegando o que era atraente ou participando de algo legal sem pensar. Tudo vinha naturalmente e se amava esses elementos de verdade. Elementos desvanecidos no tempo.

Como ter um dia para fazer um bolo porque talvez você gostasse de fazer bolo no passado. Ou começar a fazer bolos que, daqui uns anos, serão lembranças positivas sobre 2020 — e o que te ajudou a transitar.

A nostalgia provoca o relembrar e o relembrar, por vezes, machuca. Eu sei. Eu tive momentos assim. Ainda os tenho. Mas eu tenho tirado esparadrapos do cérebro na torcida de que dê certo. Afinal, reviver o que se foi traz revelações que não se espera.

Revelações que, de alguma forma, pode servir para reconstruir o eu. Como recordar que um dia você existiu em uma fase de inocência. Que você amava Edward Cullen. Que você queria o velório igual ao do videoclipe Helena do My Chemical Romance. Que você um dia foi “gótica”.

Isso tudo foi você e ainda tem seu jeito de ser.

E você pode se recolher a essa nostalgia no instante que o mundo estiver insuportável. Não resolverá tudo, mas é uma viagem e tanto que só tem coisas boas e outras verdades perdidas no tempo para entregar.

O segredo está em não temer tal febre que, como eu disse, vem sem aviso e pede para que você permaneça um pouco com ela.

A nostalgia febril da pandemia entrou em espaços subitamente desocupados. Bancos vazios. Criando linhas invisíveis de retorno ao que nos definiu de alguma forma. Há uma experiência. Um sentimento genuíno. Uma verdade que só a você pertence. O possível reencontro com um eu perdido. Um eu sem medo e que era muito mais aberto a possibilidades. Talvez, até sobre a perspectiva de um novo percurso.

Ao menos para mim, esse tipo de nostalgia, distante da sua percepção melancólica, não mente.

Em cada aspecto da nostalgia, e isso pode incluir o entretenimento, está uma parte da nossa identidade. Nunca foi tão certo para mim aquela pergunta de coach sobre “o que você gostava de fazer na infância?”. Vivendo na nostalgia, eu capturei nuances das quais sequer me dera conta já adulta. Posso não executar tudo que descobri em um grande projeto, por exemplo, mas eu ganhei uma nova leva de espaços seguros. Antídotos que me ajudarão quando eu precisar. Como cantar (a era Beijinho Doce chegou!)!

Há uma necessidade por trás da nostalgia. Seja resgatar uma emoção boa (como uma fotografia). Seja fazer seu cérebro entender que está tudo bem, tudo seguro na medida do possível (como ver filmes de heróis). Seja para relembrar que você existiu em outros tempos e tais outros tempos ainda existem — só se perderam (como tirar a Sandy do limbo). Revisitar a nostalgia é o mesmo que analisar os marcos de transição no tempo.

O seu DNA por aqui no fim das contas.

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Imagem em destaque: Mick Haupt via Pexels
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