Lembro-me que não tive grandes planos para trafegar pelos seus dias. Um posicionamento nem um pouco novo, pois meus últimos três anos têm sido assim. Moldados com pontos de partida para fugir da irrealidade de metas e eu tive que aprender a não sentir insegurança. Afinal, pontos de partida trabalham de mãos dadas com uma força maior.

Pontos de partida não envolvem pedir ou exigir para que dêem certo. São nortes. Uma leitura que gosto, pois ao menos eu sei do início (já que o problema é continuar), me usando de um desejo unânime. Como o meu desejo de escrever mais em 2020 e me assumir totalmente nesse e em outros quesitos. O percurso é algo que aprendi a não ter a menor ideia e isso aliviou altos níveis de ansiedade. Como sentir que não chego a canto algum. Uma sensação predominante nos últimos 366 dias, certo?

E tudo bem. Às vezes, eu ainda acho que não cheguei a canto algum.

Por outro lado, você me mostrou que sempre há algum canto para chegar. Pode ser bom ou ruim. Mas nunca é como se pensa. Como o esperado. A vida, o universo e tudo mais formam um grande mistério e o mistério caiu sobre o mundo uma vez que o mundo foi interrompido por um vírus. Não havia para onde ir. Muito o que elaborar. A não ser lidar com a vida entre várias paredes. Foi o famoso fuja ou se adapte.

Lembro-me que me sentia animada quando sentei para pensar sobre os pontos de partida para percorrer seus dias. Confusa, mas animada. 2019 foi um ano esquisito, embora não tenha sido de todo ruim. Aprendi muita coisa. Por dentro. De alguma forma, ano passado criou terreno para reescritas que eu sequer imaginei que aconteceriam nos últimos meses. Talvez, eu já estivesse no estado de consciência para deixar as coisas rolarem. Eu só precisava viver para crer.

Nos últimos três anos, eu entendi que pontos de partida dão espaço para a fluência nas entrelinhas. Eles caem facilmente no esquecimento, algo que acontecia com as metas também, mas as metas sempre tiveram um poder de exigir exatidão. O que não rola com os pontos de partida, pois, uma vez esquecidos, há surpresa ao reencontrá-los. Percebe-se que, de algum modo misterioso, alguma coisa se manifestou. Sem eu ter que pedir. Sem eu interromper.

É como dar partida e dar uma voltinha com o compromisso de retornar ao ponto onde tudo foi pensado no fim de ano. O famoso ato de rever o ciclo, mas com o intuito de checar quais percursos os pontos de partida renderam. Eu poderia ignorar esse retorno, mas faz parte das minhas tradições e me vi estarrecida ao retornar aos pontos de partida deste ciclo. Não somente por recordar o que escrevi, mas porque cada ponto de partida me trouxe até aqui.

Lembrei-me que aderi uma música da Taylor Swift como ponto de partida para 2020: Daylight. Taylor lançou o Lover em 2019 e, hoje, percebo que ela tem me dado músicas de transição entre os tempos. Se em 2018 eu fui de Look What You Made Me Do para New Year’s Day, 2019 foi sobre empacar em The Archer para conseguir rumar ao Daylight.

O ponto de partida que, de alguma forma misteriosa, se concretizou. Não do jeito literal e ainda duvido, pois não sinto nada no momento. O que não me impede de ver a verdade de que, entre essas músicas, há minha evolução. Coisas que se notam inesperadamente, como ao sentar para escrever este texto. Fiz uma playlist para não me esquecer disso.

Quando não tenho palavras para desejos, especialmente quando envolvem minha sede por autoconhecimento ou para me desmembrar de limitações do passado, a música me ajuda a elaborar o pensamento. Foi assim que me vi na transição de 2019 para 2020. É como me vejo agora prestes a transitar para 2021. Daylight representou meu desejo de sair das sombras do passado, do padrão de vitimização e de ver luz nos escombros. Foram muitos anos nesse ciclo e esse ciclo precisava ser interrompido para eu me sentir livre. Para eu começar a crer em uma vida melhor ao que eu já vivi nos últimos milhões de anos.

Bom, você aconteceu e quis derrubar a minha mínima fé de que há possibilidades. Chances de ter uma vida melhor. Uma vida sem tanto trauma e com traumas turbinados.

Vale dizer que me lembrei da promessa dessa música no dia do meu aniversário. A lembrança de um ponto de partida distante acordou comigo em um dia que não me deu Sol, mas um cinza friorento. Porém, incitando o desejo por novas perspectivas. Perspectivas que, no futuro, me empurrariam de volta para a escrita a fim de não deixar mais páginas em branco.

Atrelado ao súbito retorno dessa música na minha mente, em um frame de quase 24 horas naquele entretempo, me vi relembrando da necessidade de voltar para as coisas que amo. Foi o que fiz e ganhei uma sobrevida. Não imediatamente, claro. Eu ainda tive que aguentar os meses conseguintes até voltar à tona.

Tateando e escalando pelas coisas que amo. Processo nada novo, pois foi assim que transitei de 2016 para 2017.

Daylight também serviu de ponto de partida rumo à tentativa de compreensão sobre a importância de me apoiar nas partes douradas da minha história. Mesmo depois de tornados e de outros caos. Mesmo depois que tudo desmorona. Isso veio à base do exercício de relembrar e, em seguida, de destacar as partes douradas da minha história para combater a escuridão. Não havia mais essa de procurar conforto no fundo do abismo. De deixar tudo apagado como se fosse a única solução. Não desta vez.

◆◆◆

Lembrei-me dos desejos para 2020, mas só porque reli meu diário. Minha analista sempre conversou comigo sobre desejos e eu só os entendi este ano também. O mesmo para o que ela me dizia sobre fazer o que faz sentido para mim. Palavras de 2019 que atingiram minha mente em proporções positivas entre seu caos. Como eu disse, 2019 pareceu um aquecimento, além de uma repetição de coisas que eu pensava em anos anteriores.

Foi preciso interromper a repetição e reescrever o que eu disse sobre mim no passado. Aconteceu. Sem eu notar. Mas sei que isso foi possível porque eu não tive tempo de ruminar sobre as mesmas coisas de 2019, o medo descrito em uma grafia torta no diário deste ciclo. Você aconteceu para tirar todo mundo do cerne. De um eixo que posso dizer que era comum. Com o mesmo ponto de vista. Não gostei, óbvio, e para sempre detestarei o que foi preciso para isso acontecer. Para que aprendizados e descobertas também acontecessem nos últimos 366 dias.

Sempre direi que gostaria que meus aprendizados e minhas descobertas tivessem acontecido de outra maneira neste ciclo, mas, infelizmente, não há controle para tragédias. Elas vêm como um fantasma e te tomam em um rompante.

Sem tempo para se pensar apropriadamente. E ainda nem consigo pensar apropriadamente.

Você foi sobre movimentos forçados e um deles me empurrou para uma mudança profunda de perspectivas. Como parar de desfazer quando tudo que eu tenho é o presente, sem a promessa das horas seguintes. Como seguir um pensamento rúnico sobre criar e recriar dentro de espaços vazios, mas com o intuito de salvar o resto de mim. Sem saber, eu segui o que minha analista esclareceria no futuro: a criação de espaços seguros em uma casa insegura.

Eu ainda não consigo saber com precisão quais foram os seus eventos e os que foram de 2019. As linhas desses ínterins de anos parecem as mesmas. Como a impressão de que li um livro sobre filosofia ano passado sendo que foi este ano. Isso fortaleceu o meu já apreciado processo de registrar o tempo. Neste ciclo, registrar foi essencial.

Sem as passagens registradas em meu diário, eu seria incapaz de me localizar. Inclusive, de encontrar as felicidades que tive neste ciclo. Eu seria incapaz de recordar que cheguei a desejar algo em um ano que revelou coisas das quais eu intimamente sabia, mas não entendia como uma verdade. Como a vida ser vulnerável e insegura.

Que não há controle. Que tudo pode mudar em um piscar de olhos. Que você pode morrer a qualquer segundo.

Histórias de um ano que me tomou praticamente tudo, mas, em algum instante, eu me recusei a ceder. Duelo de Titãs, pois não teve como não ter o psicológico afetado neste ciclo. Não teve como não se sentir paralisada e cair no abismo. Talvez, minha vantagem é ter conhecimento desses lugares. Eu costumava vê-los quase todo fim de ano e abraçá-los. Não é um conhecimento que me preenche de orgulho, mas eu notei que posso lutar contra.

Nada de abismo desta vez. Eu decidi que não é a conclusão que quero lembrar no futuro quando eu falar sobre este ciclo. Até porque uma conclusão dessas já existe no meu livro da existência. Não dava para repetir o plot.

◆◆◆

Eu queria que tudo que descobri e aprendi neste ciclo tivesse me encontrado naturalmente, como folhas que se dispersam ao vento, e não a base de um movimento forçado que me fará te deixar com o agridoce da verdade já mencionada: a vida nunca foi segura. E a vida não assegura muita coisa. É até engraçado quando se pede para confiar na vida e pode ser pessimismo da minha parte. De qualquer forma, eu tive que aprender a confiar na vida, no universo e tudo mais nos últimos meses. Um movimento também forçado, sob a ótica de não ter o que fazer a não ser tentar todas as vezes em que eu me via de pé em dias que pareciam os mesmos.

Mas eu tive brechas iluminadas que logo se revelaram como as únicas formas para eu continuar sobrevivendo e seguindo. Tudo por causa da súbita inquietude de que não haveria pontos de partida para celebrar e nem felicidades para contar neste ciclo. Literalmente, eu tive que correr atrás sem saber que estava correndo atrás. Mistério.

Um mistério que me impede de celebrar. Dá para fingir entre algumas doses de vinho, pois qualquer celebração seria como aceitar os discursos de que as coisas acontecem por você e não com você. Positividade tóxica, no mínimo. Um pensamento sadomasoquista, como disse minha analista, pois é praticamente o mesmo que reafirmar que a única forma de evoluir e transcender é sempre sofrendo.

Quando algumas coisas podem ser tranquilamente aprendidas na simplicidade. Ou se desafiando a olhar para dentro. Um discurso mental de quem não aguenta mais assistir tragédias e que gostaria que aprendizados e descobertas tivessem outro tipo de curso no futuro. Um que envolvesse mais luz e não sombras. Banalidades.

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O que eu aprendi? Reagir, talvez, depois de abrir mão da vida em algum ponto deste ano. De um jeito que eu olhei para o teto e disse que não confiava mais na vida. Que a vida que lutasse para me convencer de que ela valia a pena ainda. Larguei-me sentada, de braços cruzados, apática, aguardando. Ação de poucos meses e ainda me parece surreal o tanto de coisa que fiz quando tudo de mim estava na unanimidade sobre desistir sem ao menos tentar.

Pois para que tentar em um mundo que mostrou que não promete nada?

Pelo movimento forçado, eu tive que aprender a reagir com intenção. Isso veio à base de revolta e de inconformismo por não querer perder mais ao que havia sido perdido. Eu me recusei e recuso. Eu tomei sua caneta por alguns instantes e comecei a escrever memórias melhores. Para mudar o ponto de vista e ter um fim de ciclo ok.

O que eu descobri? Algo também esquecido e que se encontra na primeira página do meu diário deste ciclo. Um trecho do poema Invictus, de William Ernest Henley, que diz que sou mestre do meu destino e capitã da minha alma. Somando a Daylight, ficou a compreensão de que é possível seguir com uma bagagem preenchida de elementos importantes.

E viajar. Mesmo que dentro da própria cabeça.

◆◆◆

Lembrei-me de duas palavras que escolhi para 2020. Duas palavras que saíram durante mais uma sessão de análise.

Minha analista pediu para que eu escolhesse uma palavra para o ano e algo que eu gostaria de aprender durante o ano. A palavra que me escapou foi fluir e depois eu tive tempo de elaborar sobre. No fim, eu queria deixar de ser a pessoa obcecada por planos e de pedir toda hora. Eu queria me tornar a pessoa do famoso o que tiver que ser será.

Melhor dizendo, eu queria ser a pessoa que foca em mover a energia aqui embaixo enquanto o plano se move lá em cima. Coisas que acredito, mas faltava colocar o coração e a mente para crerem também. Bom, chances não me faltaram. A vida começou a se provar junto com o universo. Foi quando eu comecei a ver o poder que existe sobre apenas entregar, pois fluir divide o peso. Além de abrir a capacidade de compreensão sobre o controle e o que não dá mais para assumir por conta.

Fluir cancela a febre de achar que coisa X tem que ser X e não Y. Além de ensinar a largar de mão e crer no curso.

Um exercício constante de confiança que pedirá anos de aprimoramento. Afinal, eu sempre tive o talento de interromper o fluxo por não acreditar. Por anos, eu fui a humana cética, mas não tão cética sobre controle. Tornei-me a humana que não divide o leme e que ignora o sussurro sobre a possibilidade de outros mares. Eu fui uma linha reta até deixar de ser.

Comportamentos antigos emoldurados não porque eu quis. Muito das limitações que me impus vieram de traumas. Inclusive, de como eu acabei aprendendo a ler algumas situações, sempre levando o lado negativo primeiro e usá-lo como escudo para sequer cogitar a ideia de tentar. Coisas que percebi este ano e não sei se foi em função do que eu disse que queria aprender neste ciclo: amor. Eu nunca entendi o amor. Automaticamente, como ser generosa comigo.

Um amor não necessariamente romântico. Foi o que eu disse para minha analista, porque eu queria aprender sobre o amor em várias camadas, especialmente do amor-próprio. É esquisito demais chegar aqui e ver que ao menos minha convicção ainda frágil sobre o amor não despencou de vez. Fazendo-me voltar ao momento em que fui questionada sobre ter me apaixonado alguma vez. Eu nem sequer fui apaixonada por mim e se há algo que acredito é naquela história de que você tem que se amar primeiro e etc.. Justamente porque eu entendi que o de dentro reflete no que está fora.

Bonito, mas você foi cruel. Sempre tendo tempo para incitar mais crueldade. Querendo desmoronar avanços, realizações e crenças ainda frágeis. De um processo lento de me desengavetar, você veio à força para abrir todas as gavetas de uma só vez e jogar as chaves pela janela. Foi como abrir o cofre que sempre fui de uma vez só. Em um bombardeio. Feridas expostas. Emoções horrorosas. Verdades sendo testadas. Um belo de um se vira com seu caos.

Há mais, muito mais, que me foge agora, mas pensar que no início eu desejei uma brecha de luz parece irreal. Não tanto quanto minha ação de ir atrás de brechas de luz para não afundar. É impressionante ver que o que almejei no início orna com o fim do ciclo. Mas ao mesmo tempo não orna e deve ser pela minha falta de interesse em sorrir.

Por enquanto, eu só capturo entendimentos. Eu entendi o poder de me assumir. Entendi o que é fluir e que o passo que eu tinha que dar era sim rumo à brecha de Sol. Entendi que preciso, sempre, jogar luz em primeiro lugar nos escombros para que os períodos sombrios não durem tanto e não me transformem do pior jeito possível. Entendi que não preciso voltar ao posto antigo de tentar ser maior que tudo e que posso me retirar quando isso acontecer.

Entendi que eu não preciso ficar em ambientes que me machucam, nem muito menos me apertar para caber em espaços que não são meus. Entendi que o amor ainda é uma miragem, mas ainda posso contemplá-lo. Entendi que sou a única responsável pelo meu amor-próprio, pois é a armadura contra promessas frágeis, contra pessoas que fingem que me aceitam ou me querem por perto. Entendi que um ano é, em sua grande parte, escrito pelas próprias mãos e não totalmente vivido em meio à espera de um grande evento. Escrever também traz os grandes eventos.

Acima de tudo, eu entendi que preciso aprender a ancorar em mim e aceitar minhas próprias mãos. Respirar fundo.

Sou eu sempre no fim como neste fim de mais um ciclo que pareceu 20 anos em um só.

Se eu fosse te dar um nome, certamente seria Midsommar. Fazendo doer até em locais que achei que jamais doeriam. Quebrando mais quando pensei que não havia mais o que quebrar. Apontando fragilidades e carências que é preciso ressignificar, como ressignificar o tempo, o universo, quem eu sou. E se há algo minimamente agradável que posso tirar de você também é o reconhecimento das minhas limitações. Histórias que contei a mim mesma desde o primeiro trauma e que preciso continuar quebrando para ter a vida que não vivi. Uma vida saudável, segura e reconfortante.

E penso que a minha saga continua ao permanecer junto à fluência. Ao acreditar mais no trecho do poema Invictus. Deixar a minha história transitar de Daylight para the 1. Ver-me como âncora que se sustenta até no inviável.

Eu nunca estive tanto dentro de mim como neste ciclo. Desta vez, eu escolhi não ignorar, embora eu tenha caído na tentação várias vezes e deu ruim várias vezes. Mas o lado bom de estudar o que há dentro de si, de ficar com a dor até seu corpo tremer ao mesmo tempo que você se segura para não quebrar pela milésima vez em curto espaço de tempo, mesmo consciente de que é preciso quebrar para libertar, é o poder de saber quais doses você já experimentou para continuar sobrevivendo. Ou para ter um falso senso de que sobrevive. Eu fui uma das campeãs de criar doses e fórmulas que me mantiveram menos na superfície pelo meu receio de quebrar. E eu ruí nas carcaças.

E tive que voltar escalando-as. Agosto. 1. 2020. Eu nunca vou me esquecer de onde minha sobrevida começou.

◆◆◆

Entre o desejo de fluir e de compreender o amor, renasceu meu desejo de continuar escrevendo e é estranho perceber que fiquei uns bons meses de 2020 sem escrever. Ao menos, no sentido de postar em algum lugar. Eu tentei e consegui de certo modo, mas minha noção de frequência sofreu uma profunda alteração também. Talvez, eu já entendia que escrever é algo que precisa ser dosado ou bebericado, como um bom vinho. Sem pressa.

Como se provou neste ciclo. Foi ao escrever que eu reescrevi e escrevi. Avanços de última hora. A salvação junto com a música. Duas forças que me inspiraram a reagir. A ficar. A ser. A ver e rever versões antigas de mim.

Várias em fotos. Outras na memória. Algumas nos diários. Eu voltei no tempo tantas vezes para ter um parâmetro sobre como eu estava em 2020. Para entender de onde nasceram minhas limitações. Se não fossem as suas tragédias programadas na minha vida, certamente eu diria que este foi o melhor ano de escrita, considerando as minhas condições. Incluindo meus aprendizados e minhas descobertas. Male, male, eu sinto que amadureci mais por ter me descoberto mais.

Mas todo ano pode ser melhor ao anterior.

◆◆◆

Eu ainda não tenho uma opinião sobre você, mas aguardo meu momento Rainha de Maio. Plena, com minha coroa de flores, vendo tudo que não presta queimar e sorrir no final. Ao menos a parte de queimar o que não presta eu vi, mas ainda há determinadas falhas (já que falta um grande urso ser queimado logo de uma vez e no aguardo).

Não sinto nem estranheza, como aconteceu em fins de 2019. Lá, eu não soube mensurar se foi bom ou ruim. Ficou neutro. Pelo bem ou pelo mal. Mas sei que 2019 foi monótono. Olhando agora, parecia um limbo, mas de um jeito amigável. De um jeito que serviu de espelho e de exemplo para eu não me deixar cair totalmente em 2020.

Lá, havia pontos de partida a serem reescritos e eu reescrevi alguns neste ciclo. Aconteceu. O mistério.

Em um mundo interrompido. Assustador de todas as formas inimagináveis. Não sei o tanto, pois eu passei meses fora do meu corpo. Mas, quando voltei, eu não quis cair no abismo de novo. Eu quis ficar, pois é a única forma para deixar ir o que tiver que ir. E não ser definida pelo que houve. Isso poderia garantir o argumento que agora vejo beleza, mas tudo que vejo é uma tremenda fragilidade. A ausência de garantias. Como o futuro e seus planos.

Reforçando o que acredito: viver no tempo de um dia.

Mesmo com tudo isso que contei, eu ainda não consigo sorrir. Se há algo que percebi, perto do seu fim, é a ansiedade sobre tudo ser terrível de novo. Um pensamento nada negativo, pois não é o que desejo. O que sinto e o que quero. Foi o que você me ensinou ao mostrar que tudo de mais terrível ainda pode acontecer, especialmente quando se acredita que nada mais de terrível pode acontecer quando já se dorme em cima de histórias terríveis.

Seria uma mentira dizer que sairei deste ciclo sem muitos receios. A missão, talvez, é não deixar os receios se transformarem em medos puros. De uma forma que me paralise, como me paralisou neste ciclo. E, se eu fosse pedir, é justamente para não sentir essa paralisia de novo. Eu também gosto da ideia de fluir dentro do meu corpo.

Muito do que descobri e aprendi neste ciclo vai comigo para 2021. Eu preciso continuar navegando. Esperando e escrevendo coisas que renderão ótimas memórias lá na frente. Apesar de um rebuliço de receios que me aborda, como um breve cutucão no ombro quando me vejo relembrando das minhas tragédias, eu encerro aqui ao escolher não ruminar sobre essas tragédias. Eu escolhi sentir um ínfimo orgulho de mim, tomar meu vinho, escutar música. Eu fui mestre do meu destino e capitã da minha alma. Eu te venci e sei que você ri de mim.

Uma risada nada negativa. Mas uma risada quase sádica, pois, querendo ou não, você me mostrou à força que sou destemida e incansável. Qualidades que agora eu abraço com afinco. E você sabe que este ciclo é mérito meu, apesar de ter dado espaço para algumas felicidades. 38 felicidades e contando (pois as lembranças vêm em espasmos).

Sei que deveria agradecer ao número 2020. Até porque eu sobrevivi, embora meu significado de sobrevivência seja outro. Mas eu não estou a fim. O biscoito da vez vai para mim e para o universo. Sem programação, nos tornamos finalmente uma dupla. Em um espaço de criação de mundos dos quais eu me sinto minha e bem-vinda.

No fim, 2020, você me largou o desejo insano de viver mais e de ser feliz. Do lado de fora. Imediatamente. Querendo transcender pela luz nos escombros e não pela tragédia. É assim que preciso seguir. E prefiro, pois é assim que continuarei acreditando na fluência, na miragem do amor e na possibilidade de transpor a dor.

Um dia, eu entenderei seu propósito. Mas não hoje. Hoje, eu apenas te deixo ir.

◆◆◆

Imagem em destaque: Damien DUFOUR Photographie via Unsplash

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